Retração e cenário externo instável colocam economia no centro do debate eleitoral
- Elisa Vaz

- Mar 8
- 3 min read
Em ano eleitoral, a economia deixa de ser um conjunto de indicadores técnicos e se transforma em um dos principais termômetros do humor político do país. Crescimento econômico, inflação e preço dos combustíveis entram no debate público como fatores capazes de influenciar diretamente a percepção do eleitor sobre continuidade ou mudança no poder.
Em 2026, esse cenário ganha ainda mais complexidade diante de um ambiente internacional instável, marcado por conflitos que pressionam o preço do petróleo e ampliam as incertezas sobre o desempenho da economia brasileira nos próximos meses.
Para se ter uma ideia, os analistas preveem uma nova desaceleração da atividade econômica em 2026, com alta projetada de apenas 1,8% no Produto Interno Bruto (PIB) em pleno ano de eleições presidenciais. O dado é de uma estimativa do jornal Valor Econômico.
A projeção reforça a expectativa de desaceleração gradual da economia brasileira após dois anos de crescimento mais robusto. O número, se concretizado, será menor que o resultado de 2025, quando a economia brasileira cresceu 2,3%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Embora o valor já fosse esperado pelo mercado, diante dos efeitos dos juros elevados, o crescimento foi o mais baixo registrado pela economia brasileira desde a queda de 3,3% do PIB em 2020, durante a pandemia da covid-19. Em 2024, a alta foi de 3,4%.
Agora, com a escalada da guerra no Irã, há mais incerteza no cenário econômico, e a alta nos preços do petróleo pode impactar a inflação e manter os juros altos no Brasil durante mais tempo.
Para entender os possíveis efeitos desse cenário, conversei com o economista Valfredo de Farias, que vê no petróleo o principal canal de impacto para o Brasil, já que o país não é autossuficiente em combustível, principalmente o refinado.
“Por mais que a Petrobras tente segurar o preço durante um tempo, se ela não repassar esses aumentos, isso vai impactar muito os custos da empresa e, futuramente, o lucro. Com a alta do petróleo, e consequentemente do combustível, é um efeito cascata. O Brasil é um país que se movimenta através do modal terrestre, impacta a economia como um todo. Rápido vira um processo inflacionário”, adianta.
Mesmo sem os impactos causados pelo conflito internacional, o economista diz que o cenário econômico brasileiro já é complicado, devido ao resultado dos indicadores. Valfredo cita o desemprego, que, embora esteja baixo, desconsidera o peso da informalidade, que reduz a arrecadação de impostos pelos estados; o PIB, que, para ele, será “fraquíssimo” neste ano; e o endividamento do governo, das empresas e das famílias.
Para ele, o cenário atual lembra momentos delicados da economia brasileira. “Se a gente comparar o que está acontecendo neste ano com 2013, que foi o ano antes da recessão, a gente vai ver que os indicadores estão muito piores”, diz.
“Um pequeno diferencial de 2013 para 2026 é que em 2013 o mundo não estava 100%, mas não tinha muita crise, as guerras eram poucas, e neste ano o mundo está com uma guerra, isso vai criar uma instabilidade violenta. A probabilidade é que a gente esteja caminhando para uma possível recessão”, comenta o especialista.
Se do ponto de vista econômico o cenário traz preocupações, no campo político a pergunta central é outra: até que ponto esses números realmente influenciam o voto? Para o cientista político Rodolfo Marques, com quem também conversei, os índices macroeconômicos como o PIB podem ter impacto, mas a inflação dos alimentos e a geração de emprego têm peso maior.
Os indicadores costumam pesar diretamente na estratégia das campanhas e, dependendo da percepção do eleitor sobre a economia, pode surgir um ambiente mais favorável à continuidade do governo ou um sentimento de mudança.
“Em geral, se a economia está bem, a tendência é que haja uma perspectiva de continuidade. Se a economia não vai bem, há uma tendência maior para se votar na mudança, se votar em uma outra perspectiva. Então, são elementos que podem ter impacto no debate político e podem estar no foco maior ou menor dos candidatos durante a campanha”, avalia.
De toda maneira, Rodolfo Marques acredita que essas temáticas serão mais observadas no segundo semestre, após a Copa do Mundo. É quando, tradicionalmente, o debate eleitoral ganha força e a economia se torna parte do cotidiano do eleitor.
Até lá, entre projeções econômicas e disputas políticas, o que realmente estará em jogo é a percepção do eleitor sobre o próprio bolso, um fator que, historicamente, costuma pesar mais do que qualquer indicador técnico.
Elisa Vaz é jornalista graduada na UFPA, tem anos de experiência em cobertura política e econômica e formação em Economia pela Fipe.



